GAYATRI MANTRAS – por Lokasaksi Dasa

gāyatrī chandasām aham

Das métricas eu sou gāyatrī”(Bhagavad-gītā. 10.35).

O que é o gāyatrī? Gāyatrī é conhecida como veda-mātā “a mãe dos Vedas”. Ela é a origem do conhecimento védico. Sem gāyatrī ninguém é qualificado para estudar os Vedas. Esse é o começo, a iniciação, dvija, o segundo nascimento. Primeiramente nascemos, pelo nosso pai, de nossa mãe, depois nascemos, pelo mestre espiritual (guru), de Gāyatrī, a nossa mãe espiritual.

O sentido da palavra gāyatrī é “a canção que concede libertação”. Ela é composta de gāyat “o que é cantado” e trāyate “o que liberta”. Segundo Srila Viśvanātha Cakravartī Thakur:

gāyantaṁ trāyate tasmāt gāyatrī tvaṁ

Gāyatrī é aquilo que sendo cantado liberta” (Mantrātha-dīpikā).

Há muitos mantras gāyatrīs, mas o mais conhecido e utilizado por todas as linhagens védicas é conhecido como o brahma-gāyatrī. Ele é encontrado no Ṛg Veda:

oṁ bhūr bhuvaḥ svaḥ
tat savitur vareṇiyaṁ
bhargo devasya dhīmahi
dhiyo yo naḥ pracodayāt 

Om! [Nos planos terrestre, intermediário e celestial] Meditemos na divina refulgência desse vivificador (sol) formidável. Que ele ilumine (inspire) nossa inteligência(Ṛg Veda, 3.62.10).

Na tradução desse mantra, a sílaba oṁ é o mantra-bīja (semente) que contém tudo dentro de sí, sendo o começo, meio e fim da existência. As três palavras introdutórias seguintes indicam os três mundos ou planos de existência: bhūr “terra”, bhūvaḥ “atmosfera”, e svaḥ “paraíso”. Essas três dimensões são planos de existência resumidos e indicados pela próxima palavra do mantra, tat, pronome demonstrativo que significa “estes”.

A palavra savituḥ indica o sol, como “aquela que dá a vida”. Vareṇiyam significa formidável ou pūjya “venerável”. Bhargaḥ significa “esplendor” ou “refulgência. Devasya significa “divino”, indicando a graça divina. Dhīmahi significa adoração ou meditação constante; a raiz verba dhī indica cultivo pela inteligência. Dhiyā significa “pela contemplação” e pracodayāt significa “por dar entusiasmo”.

O mantra se refere ao sol, aqui identificado com o “esplendor de Deus”, indicando, portanto, a consciência. O mistério do gāyatrī não pode ser desvendado sem a compreensão de que esse “esplendor” ou “refulgência” é o poder iluminante da consciência. Na verdade, analogias entre o sol e a alma, e entre refulgência e a consciência estão presente nos Vedas e em muitas outras culturas. O mantra gāyatrī descreve o poder iluminador da consciência como sendo o próprio esplendor da Divindade. Dessa forma, a fonte luminosa original seria Paramātmā, a Consciência Suprema, e a emanação esplêndida dessa fonte seria a consciência individual, o ātmā.

O brahma gāyatrī, que se apresenta como a essência de toda sabedoria védica (brahma), também é conhecido como sāvitrī-gāyatrī, no sentido em que ele descreve a origem última da vida e criação (savitṛ). Outro denominação desse gāyatrī seria sārasvatī-gāyatrī, porque ele é a essência da comunicação verbal (sārasatī / vāk), fazendo parte do processo de aprendizado védico, sob os auspícios da deusa da educação e cultura (sarasvatī).

Tradicionalmente o mantra gāyatrī era fornecido na cerimônia de iniciação (upayana) quando o estudante recebia dīkṣa, para poder estudar os Vedas e executar as cerimônias ritualísticas védicas. Ele deveria se utilizado para meditação nas três junções do dia (tri-sāndhya), ou seja, no amanhecer, ao meio dia e ao anoitecer.

Além do brahma-gāyatrī utilizado pela antiga tradição védica smarta dos membros das três classes sociais superiores (brāhmaṇas, kṣatriyas e vaiśyas), três vezes ao dia em sua meditação conhecida como sāndhya-vandana, as tradições védicas dos āgamas ou tantras śaivas, śaktas e vaiṣṇavas utilizam vários tipos de mantras gāyatrīs para meditar em suas deidades adoráveis específicas. No vaiṣṇavismo existem vários tipos de mantras gāyatrīs que são utilizados na adoração pañcarātrika.

Os vaiṣṇavas gauḍīyas, seguidores de Śrī Caitanya Mahāprabhu, não utilizavam o brahma gāyatrī como parte de seu sādhana até tempos relativamente recentes, quando Śrīla Bhaktisiddhānta Sarasvatī (1874-1937) introduziu a cerimônia dīkṣa, provavelmente como parte de seu esforço de estabelecer os vaiṣṇavas como sendo brāhmaṇas genuínos. Até então, erá utilizado apenas o kāmā-gāyatrī dedicado à meditação na Suprema Personalidade da Divindade Śrī Kṛṣņa como Kāmadeva, o Cupido transcendental.

No plano transcendental o Senhor Kṛṣņa é adorado através do kāma-gāyatrī. Quanto a isso, o Brahma-saṁhitā descreve a relação entre o gāyatrī e a flauta de Kṛṣņa:

atha veṇū-ninādasya trayī-mūrti-mayī gatiḥ
sphuranti praviveśaśu mukhābjāni svayambhuvaḥ
gāyatrīṁ gāyatas tasmād adhigatya sarojajaḥ
saṁskṛtaś cādi-guruṇā dvijatām agamat tataḥ

Então, a corporificação dos Vedas, o gāyatrīmantra emanando do som da flauta de Kṛṣṇa (após entrar em seus ouvidos) apareceu das quatro bocas de Brahmā. Pronunciando o gāyatrīmantra, Brahmā, se purificando, obteve o segundo nascimento do guru original Kṛṣṇa” (Brahma-saṁhitā, 5.27).

A vibração da flauta de Kṛṣņa é a origem dos hinos védicos. O Senhor Brahmā, que estava sentado em uma flor de lótus, ouviu a vibração sonora da flauta de Kṛṣņa, sendo assim iniciado pelo gāyatrīmantra.

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